“SE A REALIDADE NOS ALIMENTA COM LIXO, A MENTE PODE NOS ALIMENTAR COM FLORES”.
CAIO F.

sábado, 23 de maio de 2009

PEQUENAS EPIFANIAS

Que coisa! Como pequenas coisas me lembram coisas!
Achei hoje pela casa um palito de fósforo quebrado ao meio, sorri, segurei-o com força e ele se perdeu em minha mão fazendo também agora parte de minhas lembranças.
Era assim que disputávamos de quem seria a obrigação do lavar a louça após as refeições. Ainda na sobremesa já definíamos o sofredor em quem tirasse o menor palito. Deu uma saudade!
Ouço Nando Reis e inevitavelmente viajo em algumas aventuras, lembranças..., toco Linger, não sou Cramberries, mas me emociono a cada acorde, lembranças...
Ontem, passando por uma livraria, avistei o Neruda falando de amor. Foi um presente, não um empréstimo; foi um presente, não tem que devolver, afinal você não me tomou e sempre lê, lembranças...
Acho fantástica essa relação que o subconsciente faz de pequenas coisas X grandes momentos. Os cheiros são a melhor parte. Do perfume suave ao cheiro marcante de camarão, vem de súbito memórias de mim e outros ou outras, nem é preciso esforço. Aquela mulher que passa por mim cheirando a organza, me vira imediatamente o pescoço e me faz buscar uma presença fantasma de alguém, acompanho-a com os olhos, não era quem eu queria, apenas uma provocação feita ao meu olfato.
Vejo-me passeando pelas avenidas, descuidadamente procurando uma mão para entrelaçar meus dedos, ridiculamente em vão, o melhor remédio são os bolsos, que me dão um pouquinho do calor que procuro.
O garçom que me atende é o mesmo que me serviu da última vez que estive naquele restaurante, não estava sozinho e mesmo ele me trouxe lembranças de momentos bons, e eu ainda me surpreendo em como alguém pode não gostar de peixe!
Comprei uma garrafa térmica, daquelas que custam bem pouco, afinal eu detesto café em garrafas térmicas. Fiz isso por ela e hoje a tal garrafa térmica, que custa bem pouco, não sai do meu lado e o café que ela contém traz um sabor incomparável, sabor de lembranças, sabor de saudade, sabor de amor.
Não voltei mais à rodoviária, ela me remete a idas, quando de lá eu só quero vindas. Aquele prédio sem muita arquitetura me aborrece, ao passo que seu setor de desembarque me faz ficar aguardando a descida de um anjo, mais uma vez, em vão.
Essas aparições diárias me fazem, em última instância, companhia. É ruim ficar vivendo de lembranças, mas, pior seria não tê-las. Eu não vibraria tanto ao soar do telefone, não daria hoje as cores que dou ao mundo, não me manteria sempre barbeado à espera de algum milagre e nem manteria sem uso aquela camisa que ela tanto gosta.
Aguardo, enquanto sinto sons e cheiros, que essas pequenas ansiedades não passem o resto de minha vida sendo pequenas epifanias.

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SONHAR É ACORDAR-SE PARA DENTRO.
Mário Quintana