“SE A REALIDADE NOS ALIMENTA COM LIXO, A MENTE PODE NOS ALIMENTAR COM FLORES”.
CAIO F.
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quinta-feira, 28 de maio de 2009

PALAVRAS (QUASE) INVENTADAS


Daqueles que eu queria dizer
estradei, passarinhando
em uma busca desenfreada
pela palavra certa
Anoiteci-me na procura
em períodos em que me fiz sujeito
e sujeitei-me adverbiante
por não achar-te em vocábulos
Sampleei os grandes
quintaneando com maestripulias
palavras novas pra descrever-te
mas tropecei em pedras drummondianas
Concedi-me um fracasso heróico,
descobri-me não inventante,
palavra boa, palavra nova,
não descrevem meu desejo alucinante.
Como definir-te, se nem a mim o fiz ainda?
sendo assim, volto ao velho e bom chavão:
Minha neguinha, você é linda.

Adilson Sobrinho

sábado, 23 de maio de 2009

PEQUENAS EPIFANIAS

Que coisa! Como pequenas coisas me lembram coisas!
Achei hoje pela casa um palito de fósforo quebrado ao meio, sorri, segurei-o com força e ele se perdeu em minha mão fazendo também agora parte de minhas lembranças.
Era assim que disputávamos de quem seria a obrigação do lavar a louça após as refeições. Ainda na sobremesa já definíamos o sofredor em quem tirasse o menor palito. Deu uma saudade!
Ouço Nando Reis e inevitavelmente viajo em algumas aventuras, lembranças..., toco Linger, não sou Cramberries, mas me emociono a cada acorde, lembranças...
Ontem, passando por uma livraria, avistei o Neruda falando de amor. Foi um presente, não um empréstimo; foi um presente, não tem que devolver, afinal você não me tomou e sempre lê, lembranças...
Acho fantástica essa relação que o subconsciente faz de pequenas coisas X grandes momentos. Os cheiros são a melhor parte. Do perfume suave ao cheiro marcante de camarão, vem de súbito memórias de mim e outros ou outras, nem é preciso esforço. Aquela mulher que passa por mim cheirando a organza, me vira imediatamente o pescoço e me faz buscar uma presença fantasma de alguém, acompanho-a com os olhos, não era quem eu queria, apenas uma provocação feita ao meu olfato.
Vejo-me passeando pelas avenidas, descuidadamente procurando uma mão para entrelaçar meus dedos, ridiculamente em vão, o melhor remédio são os bolsos, que me dão um pouquinho do calor que procuro.
O garçom que me atende é o mesmo que me serviu da última vez que estive naquele restaurante, não estava sozinho e mesmo ele me trouxe lembranças de momentos bons, e eu ainda me surpreendo em como alguém pode não gostar de peixe!
Comprei uma garrafa térmica, daquelas que custam bem pouco, afinal eu detesto café em garrafas térmicas. Fiz isso por ela e hoje a tal garrafa térmica, que custa bem pouco, não sai do meu lado e o café que ela contém traz um sabor incomparável, sabor de lembranças, sabor de saudade, sabor de amor.
Não voltei mais à rodoviária, ela me remete a idas, quando de lá eu só quero vindas. Aquele prédio sem muita arquitetura me aborrece, ao passo que seu setor de desembarque me faz ficar aguardando a descida de um anjo, mais uma vez, em vão.
Essas aparições diárias me fazem, em última instância, companhia. É ruim ficar vivendo de lembranças, mas, pior seria não tê-las. Eu não vibraria tanto ao soar do telefone, não daria hoje as cores que dou ao mundo, não me manteria sempre barbeado à espera de algum milagre e nem manteria sem uso aquela camisa que ela tanto gosta.
Aguardo, enquanto sinto sons e cheiros, que essas pequenas ansiedades não passem o resto de minha vida sendo pequenas epifanias.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

UM POEMA COM SEU NOME

Estive pensando em você, estive pensando
ou pensava em anjos ?
Havia brilho,
seria você sol ?

Estive envolto em quenturas,
minha casa é quente,
é quente a sopa,
seria você fogo ?

Navego pela vida
trôpego, inconstante,
porções de mar,
seria você ilha ?

Pisei jardins, em sonhos
entressafras de cores,
interno inverno,
seria você lírios ?

Imaginei estádios,
pedi vitórias
dribles, pênaltis,
quero-te gol.

Fui ao fundo
toquei os pés no limo,
impulsionei-me,
quero-te cura.

Mendigo de mim,
apenas tenho-me
do que me resta,
dou-te-me.
Adilson Sobrinho

terça-feira, 21 de abril de 2009

FARSA POÉTICA

Em eternas procuras no mundo dos sonhos, das palavras fáceis, da boa rima e das tantas filosofias, me vi enganado ou não soube ir à fonte.
Quando em Caetano procurei nas franjas da encosta, alegria, alegria, quase tive de gritar que é proibido proibir. Andando a toa pelas ruas de Lisboa, procurei o poeta em Pessoa pra dele arrancar qual o tamanho da alma pra que tudo valha a pena. Em Chico busco a medida do Bonfim e nem consigo achar a veia por onde meu sangue se perdeu.
— Garcia, pra que lado fica Macondo ?
— Quintana, onde estás se não estás aqui ?
— Carlos, não encontro a melodia, a paisagem, a transparência da vida e continuo perdido na sua concha ultramarina.
Me atrevo a inquirir o poetinha, onde está o infinito, preciso achá-lo, pelo menos enquanto dure.
À Lennon e MacCartney, pedi Help, enviaram um recado por Julia em um inglês mal educado: "In agreement brother, the dream ended !"
Nereci se perdeu nos oceanos de Djavan, clamo pelo auxílio de Milton pra que me mostre em que direção se dá a travessia.
Me refazendo como o bom baiano ministro, tento aprender a magia de cultivar tomates e colher mamões.
Até tu Caio ? Não me ensinaste a pentear pensamentos matinais; de ti só tive pequenas epifanias.
Corri listas de anjos, caronas sublimes em suas asas, de A a Z, Adrianas, Albertos, Alberts, Argentos, Betos, Brunos, Ivones, Josys, Julias, Kricas, Lucias e Lulas, etc... Tudo um grande engano, todas as palavras, inclusive muitas que saíram de minha boca, nada mais foram que doces e poéticas mentiras.
É como procurar no Delta do Mississipi aquela perdida canção blue, não me arrisco mais, nessa idade, a comprar e acreditar em sonhos alheios. Que a minha procura de tudo, me leve única e estritamente, ao encontro de mim.

Adilson Sobrinho

SONHAR É ACORDAR-SE PARA DENTRO.
Mário Quintana